Esporotricose: micose subcutânea mais frequente no Brasil

A esporotricose é uma micose relacionada ao fungo Sporothrix schenckii que atinge, geralmente, a pele e o tecido celular subcutâneo, a parte profunda da pele correspondente à gordura.

Em alguns casos, essa micose também pode atingir outros órgãos nos pacientes com a imunidade deprimida.

Continue lendo o nosso post e saiba mais sobre a incidência, causa e manifestações da esporotricose.

Incidência da esporotricose

A esporotricose tem distribuição em todo o mundo, principalmente em regiões tropicais e subtropicais que apresentam altas temperaturas e umidade. 

Ela é a micose subcutânea mais frequente na América Latina, inclusive no Brasil.

Os profissionais mais afetados são os que têm contato com o solo, plantas ou materiais contaminados com o fungo, como jardineiros e agricultores.

Também é comum entre os que têm contato com alguns animais, como veterinários, uma vez que o fungo já foi detectado em animais como cachorros, gatos, tatus, chimpanzés, iguanas e roedores.

Ocorre em qualquer idade, sendo os adultos os mais afetados. Predomina nas mulheres em alguns estudos e em homens em outros.

Atualmente, tem havido grande surto envolvendo famílias em área urbana, tendo os animais, principalmente o gato, e menos o cão, como grandes transmissores.

A transmissão urbana tem sido maior do que na área rural.

Publicações recentes têm demonstrado aumento da incidência, assim como das formas clínicas mais graves e atípicas.

O que causa a esporotricose?

O agente etiológico da esporotricose é um fungo pertencente ao gênero Sporothrix e existindo 6 espécies, sendo o mais frequente o S schenckii. No Brasil, a variedade brasiliensis é muito frequente, responsavel por epidemias envolvendo a transmissão principalmente pelo gato. Essa variedade é tão ou mais virulenta do que a espécie S. schenckii.

A infecção ocorre geralmente por penetração do fungo nas partes mais profundas da pele, a derme e o subcutâneo, após trauma ou abrasão produzido por material infectado.

Menos frequentemente, ocorre pela inalação do fungo a partir do solo

Essa última maneira de transmissão é responsável pelas formas pulmonares e disseminadas, e relacionadas com a diminuição da imunidade do paciente como ocorre nos casos de:

  • Alcoolismo
  • AIDS
  • Diabetes
  • Uso de corticosteróides ou outros medicamentos que deprimem a imunidade, como os utilizados em quimioterapia

Quando o fungo  penetra no organismo através da pele, é estabelecida uma resistência através da imunidade do indivíduo, comprovada pela permanência da doença na pele e sistema linfático da pele, raramente se disseminando para outros órgãos.

Nesses casos, pode acontecer até cura espontânea.

Quando ocorre essa disseminação, as vias de penetração do fungo podem ser a respiratória ou a digestiva.

Grande parte da população já teve contato com o fungo sem desenvolver a doença devido à integridade do sistema imunológico. Isso foi comprovado pelo teste de inoculação na pele da esporotricina, com reação positiva nessa população. 

Manifestações clínicas da esporotricose

A esporotricose pode se manifestar de diferentes maneiras. Existem quatro formas clínicas:

Forma cutânea localizada

A lesão surge correspondente ao local de inoculação do fungo, geralmente única. Podem ocorrer pequenas lesões ao redor da inicial.

Coincide com alta imunidade do hospedeiro contra o fungo.

Os locais mais frequentes coincidem com aqueles mais expostos à inoculação do fungo, como as mãos e antebraços,os locais mais afetados, porém o rosto e membros inferiores também podem ser comprometidos.

Essa lesão de inoculação, conhecida como cancro, inicia-se como pápula (carocinho) associada à pústula (bolhinha de pus) ou placa infiltrada que evolui para nódulo simples ou ulcerado

Cresce excentricamente (crescimento para fora), apresentando coloração violácea, seguido pelo surgimento de pequenas fístulas ou abscessos.

Esporotricose cutânea localizada
Esporotricose cutânea localizada

Esta forma clínica não afeta o estado geral do paciente e pode haver até cura espontânea.

Forma cutâneo-linfática

É a forma clínica mais comum.

Além da lesão inicial do cancro, citada anteriormente, após semanas ou meses, a partir dessa lesão, surgem nódulos, inicialmente da cor da pele.

Após um período, eles se tornam avermelhados, indolores, seguindo o trajeto dos vasos linfáticos, como cordões( forma linear).

Os nódulos amolecem, geram fístulas para eliminação de secreção purulenta.

Muitas vezes se ulceram, adquirindo aspecto de feridas e podem ser seguidos pela formação de crostas.

Esporotricose cutâneo- linfática

Esporotricose cutâneo- linfática (foto cedida pela Dra. Cláudia Ferraz)

Nos membros, o trajeto se dirige para as axilas ou virilhas em membros superiores e inferiores, respectivamente. Na face, tem trajeto descendente.

Geralmente é unilateral, exceto quando houver múltiplos pontos de inoculação do fungo.

Não há comprometimento do estado geral do paciente. Quando não tratada, pode permanecer ativa durante anos ou curar espontaneamente.

Forma cutânea-disseminada

É uma forma rara da esporotricose.

A partir da penetração na pele, o fungo vai para a corrente sanguínea para se disseminar para todo o organismo. Normalmente, ocorre consequente à baixa imunidade do paciente, como ocorre na AIDS e no alcoolismo.

Também pode acontecer através da inalação ou ingestão do fungo.

Manifesta-se na pele pelo aparecimento de múltiplos nódulos e abscessos semelhantes à tuberculose, mas também pápulas ( carocinhos), nódulos subcutâneos, lesões ulcerovegetantes e verrucosas.

Podem também surgir lesões como pápulas, lembrando o molusco contagioso.

Os pacientes referem comprometimento do estado geral(astenia, anorexia, por exemplo), além de haver disseminação do fungo para todo o organismo.

Formas extra cutâneas 

Sempre ocorre nos pacientes com a imunidade comprometida e são raras.

São muito confundidas com outras doenças. Portanto, são de diagnóstico difícil. Acomete outros órgãos como os pulmões, as articulações, o cérebro e os olhos.

Diagnóstico de esporotricose

Realizar a cultura do fungo é muito importante para confirmar o diagnóstico.

Cultura micológica- Aspecto microscópica (foto cedida pela Dra. Claudia Ferraz)

O exame direto ao microscópio, assim como o exame histopatológico, raramente demonstram a presença do fungo.

A reação à esporotriquina (substância do fungo) consiste na injeção dessa preparação na pele do paciente e leitura após 48 horas.

Indica contato do paciente com o fungo, porém pode acontecer em pessoas que foram infectadas, mas não adoeceram, o que é muito comum.

Serve para confirmar um caso suspeito e como inquérito epidemiológico de avaliação da disseminação do fungo na comunidade.

As provas sorológicas (no sangue) servem para diagnosticar as formas atípicas e extra cutâneas da doença.

Pode ser realizado a imunofluorescência indireta, fixação do complemento, imunodifusão, eletroforese, soroaglutinação do látex, o ELISA e o PCR. Os dois últimos são muito sensíveis e específicos.

Tratamento da esporotricose

Inicialmente, se utilizava o iodeto de potássio, por via oral, com grande sucesso.

Porém, esse medicamento, de baixo custo, apresenta alguns efeitos colaterais, como o sabor desagradável.

Atualmente, a preferência é o itraconazol,utilizado  por via oral.

Deve ser continuada sua administração, assim como o iodeto de potássio, até um mês após a cura das lesões da pele. Apresenta o inconveniente do alto custo.

Outros medicamentos menos utilizados, também por via oral, são a terbinafina, o fluconazol e o cetoconazol.

A cura da doença ocorre após 3 meses. Vale ressaltar que antes de tomar qualquer medicamento, é essencial consultar um médico especializado para identificar o fungo através da cultura micológica e prescrever o melhor remédio para cada caso.

Também é importante identificar e tratar os animais domésticos em contato com as pessoas.

A anfotericina B é utilizada para o tratamento das formas graves, coincidindo com o comprometimento da imunidade, por via intravenosa. É muito eficaz, porém apresenta vários efeitos adversos, como no coração e nos rins.

Outro recurso terapêutico é a termoterapia. Consiste em banhos com temperatura a 45 graus centígrados por um período de 20 minutos, 3 vezes ao dia, de 3 a 6 meses. Não faz parte do tratamento de rotina.

Se você desconfia que está com esporotricose, não deixe de marcar uma consulta conosco para fazer os exames necessários para iniciar o tratamento. Qualquer dúvida, basta deixá-la nos comentários.

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