Foliculite Decalvante: causas, sintomas e tratamento para alopecia cicatricial 

Dr. Sergio Paulo

A foliculite decalvante é uma doença rara, que causa perda definitiva de cabelo no couro cabeludo, caracterizada pela substituição dos folículos pilosos por tecido cicatricial. Essa condição leva à alopecia cicatricial, resultando em áreas calvas permanentes. 

Embora a causa exata da foliculite decalvante permaneça desconhecida, observa-se uma área central de cicatriz com pústulas (bolinhas de pus) na periferia das lesões.  

Os pacientes frequentemente relatam sintomas como coceira intensa (prurido) e dor no local afetado. 

Neste artigo, exploramos as possíveis causas da foliculite decalvante, como reconhecer os sinais precoces da doença e as opções de tratamento para alopecia cicatricial, com ênfase na intervenção precoce para minimizar a progressão da queda de cabelo. 

Epidemiologia da Foliculite Decalvante 

A foliculite decalvante é considerada rara, representando cerca de 3% dos casos de alopecia em geral e 11% das alopecias cicatriciais (que envolvem perda definitiva de cabelo). 

Ela predomina em adultos de meia-idade e é mais comum em homens, com uma proporção que pode chegar a seis homens para cada mulher afetada.  

Importante destacar que a doença não afeta crianças. 

Causas da Foliculite Decalvante: O que Sabemos? 

A causa exata da foliculite decalvante permanece desconhecida, mas estudos apontam que ela não se trata apenas de uma infecção bacteriana simples. 

 Embora a bactéria Staphylococcus aureus seja frequentemente identificada em culturas bacteriológicas das lesões, a doença vai além de uma infecção localizada no folículo piloso. 

A teoria mais aceita sugere que o Staphylococcus aureus atua como um superantígeno, desencadeando uma resposta inflamatória exagerada do sistema imunológico.  

Nesse processo, a bactéria estimula os linfócitos T a liberar linfocinas, substâncias que intensificam a inflamação.  

Essa reação imunológica desregulada leva à destruição definitiva dos folículos pilosos, em um mecanismo semelhante a uma “autodestruição” do tecido capilar. 

 Há também evidências de uma possível predisposição hereditária, sugerindo que fatores genéticos podem influenciar o desenvolvimento da doença. 

Como a Foliculite Decalvante se Manifesta? Sintomas e Características 

A foliculite decalvante pode afetar qualquer região do couro cabeludo, sendo mais comum na área do vértice (topo da cabeça) e, em alguns casos, atingir múltiplas regiões (foto 1).  

É raro que a doença comprometa o rosto ou a nuca. 

Principais Sinais e Sintomas 
  • Alopecia cicatricial: A manifestação principal é uma área lisa de cicatriz no couro cabeludo, com perda definitiva dos fios de cabelo, marcada pela ausência dos orifícios foliculares (foto1) 
Foto 1: Foliculite decalvante, onde se observa perda definitiva de cabelo, correspondente a atrofia do couro cabeludo e atividade da doença na periferia da área de alopecia (pústulas centradas por pelo além de pápulas).
  • Expansão gradual: A placa de alopecia se expande lentamente, com sinais de atividade da doença na periferia, como: 
  • Pústulas: Pequenas “bolhinhas de pus” centradas por fios de cabelo (foto 2) 
Foto 2: Folicilite decalvante, onde se observa pústula (bolhinha de pus) e centrada por pelo. 
  • Pápulas: Pequenos “carocinhos” inflamados. 
  • Politriquia: Em cerca de 90% dos casos, observa-se a saída de múltiplos fios (de 4 a 20) pelo mesmo orifício folicular, frequentemente acompanhada por escamas ao redor dos fios (foto 3). 
Foto 3: A Foliculite decalvante onde se observa politriquia que se manifesta pela confluência de saída dos fios de cabelo por único orifício, além de descamação envolvendo o pelo.
  • Túneis subcutâneos: Podem surgir túneis com pus abaixo da pele, detectáveis pela sensação de flutuação ao toque na área afetada. 
  • Secreção: Eliminação de pus ou sangue pode ocorrer nas áreas inflamadas. 
  • Coceira e dor: A presença de pústulas, juntamente com prurido (coceira) e dor, indica atividade da doença e a necessidade urgente de tratamento. 
Prognóstico e Evolução 

O início da foliculite decalvante antes dos 25 anos, além da presença das manifestações citadas acima, estão  associados a um prognóstico mais grave e  com maior severidade da doença. 

 A evolução é crônica, com tendência a recidivas frequentes, e a perda de cabelo é irreversível, pois os folículos destruídos não se regeneram. 

 Em estágios avançados, a área afetada pode apresentar apenas alopecia definitiva, com vermelhidão (eritema) ou escamas ao redor dos fios remanescentes. 

Exames de Laboratório para Foliculite Decalvante: O que é necessário? 

Para auxiliar no diagnóstico e manejo da foliculite decalvante, alguns exames laboratoriais e procedimentos podem ser indicados.  

Embora a doença não seja exclusivamente uma infecção bacteriana, os exames ajudam a identificar fatores contribuintes e a diferenciar a condição de outras doenças do couro cabeludo. 

Exames Recomendados 
  • Cultura bacteriológica e antibiograma: Esse exame é fundamental para identificar a presença de Staphylococcus aureus no couro cabeludo e determinar o antibiótico mais eficaz para o tratamento.  

Apesar de a bactéria estar frequentemente presente, a inflamação na foliculite decalvante é influenciada por outros fatores imunológicos. 

  • Cultura bacteriológica da mucosa nasal: Este exame é importante para detectar reservatórios de Staphylococcus aureus na mucosa nasal, que podem atuar como fonte de reinfecção ou perpetuação da doença. 

No entanto, ela não é utilizada de rotina para confirmar o diagnóstico da foliculite decalvante. 

Como Tratar a Foliculite Decalvante? Opções e Objetivos 

Objetivos do Tratamento:
  • Reduzir a inflamação dos folículos pilosos. 
  • Prevenir a perda adicional de cabelo, com foco em intervenção precoce. 
Opções de Tratamento:
  • Antibióticos orais
    • Tetraciclinas: Medicamentos como doxiciclina e minociclina são frequentemente prescritos por meses devido à sua ação contra o Staphylococcus aureus e propriedades anti-inflamatórias. 
    • Azitromicina: Menos utilizada, é indicada em casos de intolerância ou resistência às tetraciclinas.
  • Corticosteroides
    • Podem ser aplicados em forma de gel, injetáveis diretamente nas lesões ou administrados por via oral, para aliviar a coceira, a dor e a inflamação. 
  • Cremes com antibióticos
    • Cremes contendo clindamicina ou ácido fusídico são úteis em casos com inflamação leve, ajudando a controlar infecções localizadas. 
  • Tratamento para casos graves ou resistentes
    • Rifampicina associada à clindamicina: Este é o esquema mais eficaz para casos graves ou resistentes, reduzindo o risco de resistência bacteriana.  Geralmente, são recomendados 2 a 3 ciclos de tratamento para prolongar os períodos sem atividade da doença.
    • Isotretinoína oral: Amplamente usada no tratamento da acne, pode ser uma opção para casos refratários de foliculite decalvante, ajudando a reduzir a inflamação crônica.